• Tiago Araripe

Letras e sanfonas


Xico Bizerra e Dominguinhos: parceria que virou disco. (Foto de arquivo - editada)


Xico Bizerra é poeta e grande letrista da música nordestina, parceiro de nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Chico César, Juliano Holanda, Maciel Melo, Accioly Neto, Socorro Lira e muitos e muitos outros.


Tem composições gravadas por nada menos que 350 artistas - entre eles Marinês, Dominguinhos, Alaíde Costa, Elba Ramalho, Quinteto Violado, Xangai, Amelinha, Silvério Pessoa, Cida Moreira e Santanna, o Cantador.

Mesmo sendo da mesma cidade que eu, o Crato cearense, só viemos a nos conhecer no Recife, onde mora, num dos lançamentos musicais promovidos pela Passa Disco, loja de CDs resiliente e diferenciada, que faz da qualidade e atualidade do seu acervo o grande atrativo de numerosos e fieis clientes.


Ali estive presente na noite de autógrafos do seu belo CD Luar Agreste no Céu Cariri, feito com canções compostas com o inesquecível Dominguinhos, na voz deste e de outros intérpretes. Como aconteceu essa parceria é o que Xico Bizerra revela a seguir.



"E O MESTRE FOI 'DEBUIANDO' CANÇÕES, XOTES, BAIÕES, VALSAS E CHOROS."


"Minha amizade com Dominguinhos se estabeleceu a partir do início dos anos 2000, quando ele gravou, pela primeira vez, uma música minha. A partir daí ela se fortaleceu ao longo do tempo e estávamos sempre juntos quando de sua presença em Recife. Seu apartamento era próximo ao meu, ele em Piedade, eu em Candeias. A confiança mútua se revelava nos mínimos detalhes como, por exemplo, quando o levava para tomar injeção na farmácia de um conhecido, burlando normas da Anvisa que proibiam tal procedimento. Mas a justeza da causa e minha boa intenção davam amparo à burla. Certo dia, 2010, recebo um telefonema de seu Domingos, dizendo que tinha umas ‘musiquinhas’ para eu colocar letra. Qual não foi minha surpresa e honra ao receber essa incumbência, partindo de quem partiu? Daí, fomos para a casa de Paulo Vanderley, amigo comum (Xangai estava lá nesse dia) e o Mestre foi ‘debuiando’ canções, xotes, baiões, valsas e choros, num total de 12 músicas, que vieram a compor nosso Luar Agreste no Céu Cariri (o Agreste em homenagem a ele, de Garanhuns, e o Cariri fazendo menção à região em que nasci, Crato – CE). Esta é a história de nossa parceria lamentavelmente interrompida pela partida do grande Mestre. Ainda tínhamos muito por fazer."


Xico Bizerra




Santanna, o Cantador. (Foto de divulgação)


Conheci Santanna de forma inusitada. Estava divulgando o lançamento de um CD (Cabelos de Sansão?) numa rádio do Recife, quando, num intervalo dos comerciais, o radialista me passou o telefone dizendo que Santanna queria falar comigo. Surpresa maior foi quando atendi e ele começou a me chamar de primo. Descobri, naquele momento, que éramos da mesma microrregião do Cariri (ele de Juazeiro do Norte, eu do Crato) e da mesma família Alencar.


No lançamento, que aconteceu no pátio do shopping onde a loja Passa Disco estava instalada, Santanna não apenas se fez presente, como teve participação espontânea, cantando alguns dos seus sucessos.


Eu tinha escutado há alguns anos, quando morava ainda em Fortaleza, sua interpretação do ótimo xote A Natureza das Coisas, de Accioly Neto. Então já sentia familiaridade com a sua voz. Depois do nosso encontro, ficamos mais próximos. Até que, um dia, compondo um baião ao violão, me veio de pedir a ele pra ajustar um trecho da música, Assim nasceu a nossa parceria, ainda inédita.


À minha solicitação de participar desta série do blog, ele, prontamente, respondeu afirmando que estaria mais à vontade falando o que tinha a dizer - assim poderia melhor expressar o que sentia.


Pena não poder reproduzir aqui a sua voz, na mensagem emocionada que me enviou pelo zap e tanto me tocou. Mas a transcrevo a seguir, admirado de que o longínquo show de um grupo de rock num clube de Juazeiro do Norte tivesse, na plateia, o garoto que viria a se tornar Santanna, o Cantador.

(Em tempo, Black Nordeste era o nome do show com o qual o Papa Poluição, que integrei durante os cinco anos de existência do grupo, se apresentou em cidades como Salvador, Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha e João Pessoa, nos idos de 1978.)


"AÍ VEM VOCÊ E ME CONVIDA A FAZER UMA PARCERIA"


"Meu querido primo Tiago Araripe. Você sabe que nós somos de uma região diferenciada, né? Nosso Cariri. E na nossa família teve muitos vultos históricos, políticos, artistas, atores. E na época que conheci você, era, se não me engano, 1974 (na realidade, 1978). Teve um show na AABB, ainda com o Papa Poluição, que vocês marcaram a história da música do Cariri – e também do Brasil, porque vocês vinham com o Black Nordeste muito à flor da pele, uma proposta poética magnífica que até hoje eu me emociono quando escuto, porque eu sempre revisito, e de repente eu, fã de carteirinha seu, aí você vem e me convida a fazer uma parceria com você numa canção. Você imagine como é que se sente o fã perante o ídolo. Então eu sou muito feliz de ter lhe conhecido, sou muito feliz de pertencer à mesma família que você, a família Alencar, e me senti engrandecido pelo seu convite, me senti... Eu sofri um acréscimo de autoestima muito grande depois do seu contato pra gente fazer aquela parceria. Então muito obrigado, primo véi, que Deus te abençoe e continue fazendo sucesso. Você é diferenciado. Aqui falou Santanna, o Cantador."



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