• Tiago Araripe

Em casa com as mudanças do mundo


Usando novos equipamentos, na busca de melhor captação da voz. (Foto: Ana Ruth)


Quando gravei pela primeira vez um disco, na São Paulo de 1973, tudo era muito básico. No estúdio, de apenas dois canais, as gravações funcionavam como que uma versão primitiva de quadros do tipo "quem sabe faz ao vivo": não haviam correções posteriores de afinação (que nos fazem parecer melhores cantores do que somos), ou outros recursos miraculosos proporcionados pela tecnologia de menos de uma década depois.


Era tudo muito básico. E funcionava.


Falo do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe (Continental, 1974), com duas faixas: Conto de Fraldas (Tom Zé) e Teu Coração Bate, o Meu Apanha (Décio Pignatari e eu), com arranjos e teclados do ainda desconhecido Guilherme Arantes, que também participou dos vocais. Ainda na ficha técnica, nomes como o saudoso parceiro Paulo Costta, Zé Eduardo Nazário e um popular trio vocal.

"Eu era um menino de 19 anos" (Guilherme Arantes)

Olha o que diz Guilherme Arantes do disquinho, na fanpage do seu fã-clube: "Essa gravação foi minha primeira chance de trabalhar em estúdio. Isso saiu em 1974 e o Moto Perpétuo gravou logo depois, no segundo semestre, nos estúdios da Sonima na avenida Rio Branco. Mostra o quanto eu fazia parte de uma vanguarda total com o Tom Zé, importantíssima e atual. Eu era um menino, de 19 anos."


No compacto seguinte e no mesmo ano, já em carreira solo e pela Odeon, gravei Os três Monges e Sodoma e Gomorra em quatro canais, com a participação de amigos com quem viria a formar, um ano depois, o grupo Papa Poluição: José Luiz Penna, Paulo Costta e Xico Carlos.


Com o Papa Poluição, o número de canais aumentou. Quando fizemos a trilha do filme Sargento Getúlio, já foi nas 16 pistas do Eldorado, referência de estúdio moderno na capital paulista. Lá também gravamos o compacto simples Tua Ausência (Paulinho da Costa-Penna) e Inferno da Criação (Tiago Araripe-Penna) (Top Tape, 1978).


Em 1981, seria a vez de Cabelos de Sansão (Lira Paulistana, 1982/Saravá Discos 2008), no estúdio Áudio Patrulha, de Tico Terpins e Zé Rodrix. Ali tivemos muitas experimentações sonoras, em mais de 300 horas de trabalho - um luxo, em se tratando de um álbum alternativo.


Lembro bem do Zé Rodrix, sempre afável, acompanhando algumas sessões de gravação. E do cuidado de Wilson Souto Júnior, do Lira, com cada detalhe da produção musical.

Os investimentos em infra-estrutura, equipamentos de última geração e técnicos experientes restringiam o universo dos estúdios e das gravadoras ao eixo Rio-São Paulo. Uma das notáveis exceções foi a Rozenblit, no Recife, responsável pelo lançamento de artistas como Jacinto Silva (pelo selo Mocambo) e, muitos anos depois, de álbuns emblemáticos da psicodelia nordestina, como Paêbirú: Caminhos da Montanha do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho.


Se você não é de clicar nos links e mergulhar nos hipertextos, veja o que diz a Wikipídia sobre a Rozenblit: "Entre a década de 1950 e meados dos anos de 1960, foi considerada a maior produtora de discos em vinil no país (22% do mercado nacional e 50% do regional)".


(Pra quem queira se aprofundar na história da Rozenblit, indico o ótimo livro Do Frevo ao Mangue Beat, do jornalista José Teles, onde há um generoso capítulo que narra a saga da gravadora instalada, quase que premonitoriamente, no bairro de Afogados e atingida por diversas cheias.)


Não cheguei sequer a saber da Rozenblit, nos tempos de estudante e de primeiros shows no Recife. Mesmo porque tinha na cabeça a ideia de que, pra fazer e acontecer, o artista precisava migrar pra São Paulo ou pro Rio. Afinal, era o que então havia acontecido com nomes importantes da cena pernambucana, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo, então gravando juntos seu primeiro LP.


De Cabelos de Sansão pra cá, mudanças marcantes ocorreram no mercado da música. Os álbuns de vinil foram substituídos por CDs, e em seguida a grande maioria das lojas de CDs fechou as portas à medida em que avançava a oferta de música por serviços de streaming. Ao mesmo tempo, a procura pela qualidade sonora dos antigos LPs fez ressurgir a produção de discos de vinil, agora destinados a um público mais exigente e com maior poder aquisitivo.


O modo de ouvir música foi amplificado com as plataformas digitais e a forma de produzir canções se tornou mais democrática com o aumento de escala que popularizou a aquisição de equipamentos de gravação. Pequenos estúdios começaram a pipocar nas mais diversas cidades brasileiras. De um lado, a viabilização de trabalhos locais; de outro, a globalização de muitos artistas.

Encontrar espaço em meio a esse mercado online, regido por algoritmos, e face às mudanças em ritmo acelerado pela tecnologia se tornou algo complexo. Diversos artistas precisaram se adaptar aos novos cenários, estudar as alternativas de produção e divulgação de sua música, além de gerenciar sua própria produção.


Sou um deles. Desde 2018, venho produzindo meus próprios fonogramas, tanto no Brasil quanto em Portugal. Com a pandemia, vieram novas necessidades e comecei a gravar canções à distância, registrando a voz em casa, com equipamento básico - mas eficiente - indicado por amigos da área.


As três composições mais recentes do nosso novo álbum, que espero lançar em agosto, têm essa pegada - já iniciada com os singles Nenhuma Igual a Você e Lugar ao Sol.


Gravar em casa tem inconvenientes, mas algumas vantagens. No primeiro grupo, a atenção para não vazar ruídos do entorno ou o ato solitário em cantar num quarto o mais hermeticamente fechado possível, sabendo que não há uma segunda opinião abalizada pra dirigir a interpretação ou, simplesmente, dar alguma dica sobre a linha que estou adotando.


Já entre as vantagens, há a inexistência de pressão com relação ao tempo de trabalho e a liberdade de me permitir gravar o maior números de vezes que a paciência permitir, até chegar ao take ideal. Mas há, sobretudo, a sensação de superação ao me perceber aprendendo algo novo, impensável antes que um vírus, invisível a olho nu, praticamente me impulsionasse a isso.



NA PRÓXIMA QUINTA, 22


Você vai saber informações sobre nosso novo álbum: quais os parceiros das canções, as participações especiais, os produtores musicais das 14 faixas, como surgiram o nome e a ideia da capa. E de que forma poderá contribuir para que o disco se realize e chegue às suas mãos - e aos seus ouvidos.


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