• Tiago Araripe

Da abundância de "Cabelos de Sansão" ao minimalismo de "Abracadabra"


Tiago Araripe no show de lançamento de Cabelos de Sansão, realizado no Lira Paulistana,

com a participação da banda Sexo dos Anjos (foto: Nícia Guerriero).


Quando Cabelos de Sansão começou a ser produzido e nos anos que se seguiram, eu trabalhava como operário das palavras. Conciliava os ensaios de base do álbum junto à banda Sexo dos Anjos – e mais tarde as gravações no estúdio Áudio Patrulha, de Tico Terpins (Joelho de Porco) e Zé Rodrix – com a jornada de revisor de textos no parque industrial da Editora Abril, à época o maior da América Latina. Significava madrugar às 4h, embarcar num coletivo que, feito sonho, percorria ruas e avenidas desertas de São Paulo até chegar à Praça Marechal Deodoro. Descia bem diante do edifício da Rede Globo. Depois de alguma espera junto a operários em uniformes de trabalho e tendo como eventuais passantes estranhos personagens da noite, subia no ônibus da Abril, que me transportava até a entrada de serviço da empresa, na Marginal Tietê. Cruzava então todo um ambiente fabril, com máquinas de impressão de tamanho equivalente a três andares, em meio ao ruído das rotativas e ao cheiro de revistas saindo do prelo. Lá nos fundos daquele complexo estava a salinha reservada à turma da revisão.

Entrava às seis, saía às 14h. Depois de ser revistado por um segurança, em procedimento a que eram submetidos todos os operários para evitar desvios de publicações, ia de ônibus até o Áudio Patrulha. Ali as gravações rolavam a partir da tarde, sem hora pra terminar. Com direção musical de Felipe Vagner e produção criativa de Wilson Souto Júnior, transitávamos pelas várias formações musicais que caracterizavam cada faixa e toda a diversidade do álbum.


As gravações envolviam 36 músicos e convidados, como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e Vânia Bastos, para citar a linha de frente dos vocais.

Uma felicidade poder contar com tantas contribuições e com o apoio irrestrito do Lira Paulistana. Digo irrestrito porque fui atendido em tudo o que imaginei e pedi, algo impensável até então numa produção alternativa. Creio que, até hoje, as vendas do álbum não chegaram a cobrir os custos do investimento – tanto no caso do vinil de 1982 quanto no que diz respeito à sua reedição em CD pela Saravá Discos (2008) de Zeca Baleiro, que época tinha Rossana Decelso como sócia.

Reunir tantos talentos no Cabelos de Sansão seria impensável não fosse o clima de interação entre os artistas, tendo como epicentro o Lira, que desempenhava ativo protagonismo no cenário cultural de São Paulo, com shows diários e sempre lotados no teatrinho localizado no histórico porão da Praça Benedito Calixto.


No Lira Paulistana, a pluralidade de estilos musicais era marca registrada.

E não se tratava apenas de música: havia teatro, dança, jornalismo, artes visuais e toda uma pulsação criativa e produtiva ali centrada e administrada pelos visionários sócios Chico Pardal, Fernando Alexandre, Plínio Chaves, Riba de Castro e Wilson Souto Jr.

Cerca de quatro décadas depois, não imaginaria viver realidade tão diametralmente oposta. Tendo trocado a comodidade de um razoável salário de publicitário no Recife por um estilo de vida minimalista numa pequena e tranquila cidade rural do além-mar, reduzindo drasticamente hábitos de consumo, precisei ajustar minhas atividades musicais a essa nova condição.

Passei a gravar singles de grão em grão, como se não precisasse ganhar o pão, encarando o desafio de fazer o máximo com o mínimo de recursos. Ou seja, trabalhar com poucos, selecionados e versáteis músicos (não raro, há quem toque mais de um instrumento), contando com certa camaradagem na negociação dos cachês. Isso, naturalmente, sem abrir mão de bons estúdios e da qualidade do produto final.

Assim tem sido desde Tudo no Lugar a Abracadabra (Novas Manhãs Que Virão), pra dar exemplos de canções produzidas em Portugal. Importante é estar em movimento, procurando manter a qualidade e a diversidade que caracterizam meu trabalho musical desde Cabelos de Sansão.


Até onde terei fôlego, não sei. Continuo mergulhando.

A partir de 2 de julho, 17h (horário de Brasília), veja o novo clipe de Abracadabra AQUI.

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