• Tiago Araripe

Um ukulele em Limburgerhof


Placa de sinalização na estação ferroviária da cidade


Ideias surgem das formas mais inesperadas. Na cama, no chuveiro, numa viagem. São anotadas no caderno de cabeceira, ditadas no gravador do celular, rascunhadas em pedaços de papel que correm o risco de se perder pra sempre. Quando se trata de ideias musicais, uma simples mudança de instrumento parece ter o condão de abrir novas possibilidades. Já aconteceu comigo, por exemplo, numa encantadora cidadezinha italiana ao pé dos pré-Alpes, quando dedilhava um violão de excelente sonoridade e fabricação artesanal, que trazia a marca de um reconhecido luthier.

Foi também o que ocorreu quando tive nas mãos, pela primeira vez, um ukulele. Estava numa pequena cidade da Alemanha, a duas horas de Frankfurt. Diante da casa em que moram os amigos Ricardo, Aimara e os filhos Manuela e Rafael, com parte da minha família, assistimos à tradicional queima de fogos do ano novo, que iluminava as primeiras horas de 2020 e quase fazia esquecer o frio que se impunha ali fora. Durante aqueles dias felizes e aconchegantes, que em nada fariam supor a crise de proporções mundiais trazida – semanas depois – pelo Covid-19, a música era parte integrante do clima. Entre os hóspedes, havia uma pianista brasileira que conquistara diversos prêmios internacionais e mora na Suíça. Ela, Marina Rabelo, brilhava naqueles saraus improvisados, executando com maestria peças de grandes compositores, entre eles o nosso Heitor Villa-Lobos.

Mesmo sofrível instrumentista, arrisquei tocar algumas de minhas composições ao violão.


Em determinado momento, o ukulele de Manuela entrou em cena.

Curioso, quis saber da sua sonoridade e das possibilidades que oferecia. Logo estava experimentando acordes numa sequência que me soou bem e que desenvolveria depois ao violão, já de volta ao nosso apartamentozinho rés-do-chão em Portugal. Nascia Abracadabra, em pré-lançamento neste site pra você baixar e ouvir. É a primeira composição em que coloco subtítulo – Novas Manhãs Que Virão. No momento em que escrevo estas palavras, no recesso de casa em que grande parte da humanidade procura se defender como pode da pandemia, soa como sinal de esperança. E um chamado à vida.




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©2020 por Tiago Araripe