• Tiago Araripe

Uma canção nascida de seis parceiros e cinco guardanapos de papel

Atualizado: Jan 19


Rogério Franco e Dalwton Moura: parceiros do álbum Futuro e Memória e de outras canções.


Da mesma forma que aconteceu com o maestro Luciano Franco, conheci Rogério Franco nos bastidores do show de lançamento do CD Futuro e Memória. Ele e Dalwton Moura, autores das canções do álbum, celebravam no palco, com diversos intérpretes da cena cearense, um projeto que havia esperado uma década para ser concretizado. Valeu a paciência, pois quando o disco foi entregue pela fábrica mostrou-se uma produção extremamente bem cuidada, do projeto gráfico de Caio Castelo aos arranjos, à escolha dos intérpretes e à seleção das canções.


Depois, trocando mensagens à distância, eu e Rogério nos tornamos amigos e parceiros de duas canções (ainda inéditas). Não poderia deixar de ser em se tratando desse compositor tão atencioso e receptivo, que é também músico, arranjador, produtor cultural e contabiliza 62 parceiros na sua trajetória pelos mais diversos palcos, bastidores e estúdios de gravação.


Em textos exclusivos para este blog, Rogério Franco escreve sobre o universo da parceria musical e conta a saborosa história de uma composição escrita por cinco poetas em uma mesma mesa de bar e musicada por ele. O resultado é uma espécie de mistura de acaso com intencionalidade,


A música, um tango que ganhou o nome de Enquanto a Canção Finda (Ampulheta), foi gravada pela cantora cearense Joana Angélica e pode ser ouvida no álbum Cantando as Coisas de Cá, produzido por Pingo de Fortaleza. (Veja a letra da canção no final desta postagem.)


Com a palavra, Rogério Franco.


SER PARCEIRO É, ACIMA DE TUDO, COMPROMISSO E RESPONSABILIDADE.


"A composição é, definitivamente, o que há de mais importante dentro da atividade que desenvolvo com a música.


Descobri essa paixão ainda bem jovem quando, atrevidamente, mergulhei na poesia de Batista de Lima, Oswald Barroso, João Cabral de Melo Neto, Gilmar Chaves e muitos outros que, ao longo desse caminho, inundaram a minha vida de orgulho, prazer e honra.


Hoje, para minha alegria, coleciono, catalogados, 62 parceiros. Amigos que também se tornaram irmãos.


Sim, o universo da parceria musical é uma irmandade forte e simboliza algo como uma conquista, uma aquisição para a vida de um compositor.


Com o parceiro, eu desenvolvo fácil e espontaneamente uma relação de cumplicidade e confiança. Trabalhamos em prol do belo e na busca constante por uma verdade que é estritamente nossa.

Dividimos os detalhes dos detalhes de cada palavra, de cada vírgula, das escolhas melódicas e das construções harmônicas até sua maturação final, como quem, com todo carinho e amor, conduz o filho para vida.

Ser parceiro é, acima de tudo, compromisso e responsabilidade."



CINCO PARCEIROS DE UMA "CHIBATADA SÓ".


"Certa feita, em uma mesa de bar na cidade de Fortaleza-CE, cinco compositores, poetas, bebiam e brincavam de escrever poemas em guardanapos de papel.


Cada qual com seu guardanapo, sua intelectualidade, sua genialidade profana ou não, escorria seu poema como que instigando a verve prosaica do parceiro ao lado.

Ao final, com os guardanapos devidamente recolhidos e empilhados na palma da mão de um deles, que se elegeu organizador, os cinco poemas se transformaram em uma bela letra de música, entrelaçada e amarrada pelos versos, palavras e rimas de uma madrugada boêmia.

- Quem irá musicar esses versos? - perguntavam os majestosos ciganos.


Aí um deles, do alto de sua insanidade, bradou o meu nome, kkkk.


Foi assim que a vida me deu a sorte e a imensa alegria de ganhar cinco parceiros de uma 'chibatada só'."


Rogério Franco


ATUALIZAÇÃO

(18.01.2020)



O autor e compositor Alan Mendonça, um dos parceiros do tango

Enquanto a Canção Finda (Ampulheta). (Foto: Louyse Gerardo)


Como numa colcha de retalhos tecida na memória, chega mais um depoimento de outro dos parceiros de Enquanto a Canção Finda. É o escritor, compositor, dramaturgo, editor, educador e produtor cultural Alan Mendonça quem, agora, dá a sua detalhada versão do processo criativo que resultou no tango gravado por Joana Angélica. Veja, a seguir, o seu relato:


"UMA LETRA NO ESQUEMA TELEFONE SEM FIO DE GUARDANAPOS"


"Há dias, vi a gentil postagem de Tiago Araripe sobre a história da canção Enquanto a Canção Finda, cuja letra foi escrita pelo 'time' de futebol de mesa Pingo de Fortaleza, Ronaldo Marques, Dalwton Moura, Henrique Beltrão e eu, Alan Mendonça, na noite de 5 de agosto de 2002, há 18 anos e uns quebrados, entre uma cerveja e uma canção do Chico e outra (na voz de Dedé Nunes), e musicada por Rogério Franco em 2005.


Depois da postagem de Tiago, fui chafurdar na memória lembranças daquela noite, daquele tempo. O álcool e os dias corroeram as idades e as imagens, mas, pelo que lembro, há pouco havíamos lançado, eu e Pingo, várias parcerias no CD Solo Feminino (canções de Pingo interpretadas por mulheres, a maioria, cearenses). Talvez para conversar sobre algum novo projeto, fomos para o Cantinho Acadêmico e Pingo chamou Dalwton Moura, que também assinara uma das letras do Solo. Com pouco tempo, talvez saindo das bandas das Casas de Cultura ou porque ainda morava em cima da Arte Ciência, personifica-se Henrique Beltrão e, entre uma cerveja e uma canção do Chico e outra, alguém (acho que Pingo) propôs que escrevêssemos algo para talvez virar uma letra no esquema telefone sem fio de guardanapos, os quais foram profanados da tradição por já inúteis cartões postais de divulgação do show de lançamento do Solo Feminino.


Os postais foram passando giratórios, de mão em mão, e o Frankenstein foi nascendo, tossindo e choramingando, encantado. Nessa altura do tempo, Ronaldo Marques, habitante habitual do Benfica, já estava conosco de caneta e postal. Terminada a noite, Pingo recolhe os cartões do bingo, pois, segundo ele, iria organizar as ideias e musicar. Algum muito tempo depois, vou à casa de Pingo e pergunto pelos cartões onde havíamos escrito aquela letra naquele dia... Ainda lembro a voz de Pingo dizendo: 'Sei lá, Mendonça... e aquilo é muito doido... lá presta!!'. Só sei que fomos encontrar os postais todos com aparência de vendaval espalhados no case do violão do Pingo... era a cara do perdido. Com receio do futuro, juntei os postais e os levei para casa.


Hoje, infelizmente, não sei onde exatamente estão esses postais, mas sei que estão dentro do território da casa dos meus pais, mais provavelmente sob camadas espessas de tempos mendoncianos desorganizados. Quando visíveis novamente, serão ótimos documentos históricos. Neles havia frases como: 'não entendi a letra' e 'melhor passar' e outras ironias dos poetas, que me serviram de imagens para trechos de que gosto muito, da letra que organizei.

Não sei exatamente quanto tempo depois, passei ao Rogério Franco aquele Frankenstein com roupa de domingo, que Rogério, com toda sua cuidadosa inventividade, transformou no tango Enquanto a canção finda, gravado no CD Cantando coisas de cá, de Joana Angélica, no fim de 2007, o segundo disco do Selo Radiadora Cultural, que durou de 2007 a 2017, lançando por volta de 80 discos, todos cearenses, e que, desde 2017, náufraga do mercado musical, encontrou areias nas folhas e se transformou na Editora Radiadora, já, por esses dias do agora, com quase trinta títulos no catálogo, todos cearenses também.


Segue abaixo a letra da canção que não se findou pelos esconderijos do vento dessa cidade, desfortaleza desatenta e desmemoriada, que nem sabe de nós, compositores, que somos e seremos... sempre... canções a mais."


Alan Mendonça



ENQUANTO A CANÇÃO FINDA (AMPULHETA)


(Alan Mendonça/Dalwton Moura/Henrique Beltrão

Pingo de Fortaleza/Ronaldo Marques/Rogério Franco)


E assim somos e seremos

Um tango sem fim

Mil passos a mais

E a vida se faz assim

Estamos e estaremos

Quem sabe faremos

Quem sabe saberemos o que fazer


Virar várias vezes a ampulheta

Pra compreender a letra do destino

E saber passar


Vamos limpar nossos discos

Nossos livros, nossas vidas

Nossas sinas, nossas lidas

Nossas despedidas

Vida, nossa vida

Cumpramos nossa trilha

E enquanto a canção finda

Nossa estória continua


Sina de longarina

Na seca à beira-mar

Sina de lamparina

A iluminar.


NOVIDADES


Luiza Nobel interpreta Lugar ao Sol, canção classificada

em segundo lugar no Festival da Música de Fortaleza 2020.


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