• Tiago Araripe

Ponte entre a música e a publicidade


Wilson Bentos, como ele se define: "Profissional de comunicação preocupado

com o destino do planeta, atrás de pessoas que pensem parecido".


O projeto Pontes, idealizado e realizado pelo amigo de longa data Wilson Bentos, ligou dois continentes e reuniu Vânia Bastos, eu e ele numa conversa gravada, editada e levada ao ar neste 3 de abril, pelo Facebook dele. Gostei muito do encontro - fazia décadas que eu não via a Vânia - e pedi a Wilson que escrevesse um texto falando do projeto e contando as impressões que teve do nosso bate-papo a três.


Com a liberdade que existe entre amigos, ele ignorou o "briefing" que eu lhe passara e me traçou um perfil personalíssimo - com direito a algumas licenças poéticas (ou publicitárias) na recriação dos acontecimentos (corrigi alguns dados, mas outros deixei passar, pra não perder a graça).


Então, sem mais delongas, aí está o texto do Wilson Bentos. Pra ler sorrindo.


"TIAGO E VÂNIA NÃO SE VIAM HÁ VÁRIAS DÉCADAS. FICARAM EMOCIONADOS COM O REENCONTRO E EU CHEIO DE ORGULHO DE TER PATROCIONADO O BATE-PAPO DELES."


"Quando conheci Tiago Araripe levei um susto. Do outro lado da mesa havia um homem esguio, de fala mansa quase sussurrante, com forte sotaque do Cariri, a região de montanhas que une o Ceará e Pernambuco e cujo acento é talvez aquele que a maioria Brasil identifica como o sotaque nordestino. Na fala dele havia os ti e os di em que se emprega a sonoridade pura dessas sílabas sem as outras letras que outros brasileiros agregamos a elas em nossa fala, em que viram tchi e dji.


Nós estávamos em Salvador, como membros de uma equipe que preparava uma campanha eleitoral para Fortaleza, em 2000. Na minha frente havia um homem tímido, que à primeira vista se escondia atrás da fala discreta, como alguém que nos observa por detrás de uma árvore, a uma certa distância, sabendo que se mostra um pouco, mas ainda assim se mantendo distante e protegido em seu refúgio verbal.


Era, eu disse, e o verbo precisava mesmo ficar no passado. Pois depois de breves palavras de apresentação – “eu sou compositor, fiz a trilha daquele filme Sargento Getúlio” – o homem tímido encolhido atrás da mesa agigantou-se de repente e se pôs a cantar. Era o jingle que ele havia composto para a campanha política em que ambos iríamos atuar e que marcaria para sempre o início da nossa amizade, sempre fraterna e generosa da parte dele. Mas o Tiago quando canta se agiganta, e a rima aqui vem a calhar porque essa é uma parte dele que para mim ainda permanece misteriosa e quase inexplicável. E eu quase tive um piripaque ao testemunhar aquela transformação.


Porque se você olha para o personagem, sempre afável, elegante, capaz de tiradas inteligentes e até mordazes dependendo da pessoa a que se dirige, é impossível achar que aquela voz o habita. É como se, quando canta, ele incorporasse um outro espírito – dizem que alguém já o comparou aos trovadores medievais e eu mesmo acho o timbre dele parecido com o do Ney Matogrosso. Mas o Tiago Araripe cantando é mesmo uma outra pessoa, mais exuberante, até exibicionista quando comparado com o Tiago falando, sempre contido nas palavras, como se elas comportassem toda a elegância que ele traz de uma longa linhagem expressa em seu nome quilométrico: Tiago Figueiredo de Alencar Araripe. O Alencar, no caso, remonta a Bárbara de Alencar, primeira prisioneira política da história do Brasil, heroína da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador e avó de outro Alencar famoso, o escritor José.


Então, como herdeiro de linhagem tão nobre, que há muitas décadas abriga intelectuais prolíficos e mulheres fortes, igualmente brilhantes nas artes, Tiago poderia ostentar um desses títulos de nobreza, caso ainda vivêssemos numa monarquia. Seria talvez um barão, um visconde, um daqueles caras que a gente reverencia só de lembrar. Mas jamais seria, por exemplo, um coronel, porque, embora essa espécie tenha vicejado no sertão nordestino e ainda se manifeste atualmente em alguns dos políticos da região, tem nada a ver com o Tiago, que pode ser muita coisa, menos um cara mandão e autoritário merecedor da alcunha desairosa de um título militar tão desprestigiado entre civis.


Mas esse homem nobre na acepção mais comum da palavra, que não tem a ver com linhagem ou títulos, é também um personagem oculto. É como se fosse uma espécie de Clark Kent, escondido por trás daqueles óculos grossos e daquela roupa bem careta para, de vez em quando, se livrar dela, envergar uma capa e sair voando por aí. E o Tiago voa quando canta. É quando a timidez vai embora e talvez se manifesta o exibicionismo leonino que ele não consegue conter quando abre a boca para cantar.


Mas há também um outro lado, o do compositor. Esse também é um personagem camuflado, que se esconde na voz mansa, às vezes quase inaudível, para se revelar em letras e músicas que parecem vir de outra esfera, de outra dimensão, de qualquer outro lugar, menos daquele homem tímido, de movimentos lentos e contidos como os daquelas aves aquáticas nos passos que preparam o voo.


Lembro de uma vez, em Fortaleza, em que fomos apresentados à maranhense Rita Ribeiro, hoje mais conhecida pelo nome de Rita Benneditto. Éramos, eu e Tiago, dois seres comuns sendo apresentados a uma quase celebridade. Mas em determinado momento a situação se inverteu. Rita, ao ouvir o nome de Tiago, pulou no pescoço dele e gritou, com sua voz potentíssima, para surpresa de todos que estávamos à mesa, principalmente do Tiago: “Cara, o Zeca Baleiro é seu fã!!”.


Zeca era um artista em ascensão, ainda não completamente famoso, mas já um nome respeitado na MPB. E o modesto Araripe era só um redator publicitário em Fortaleza, afastado momentaneamente da música para buscar meios mais eficientes para prover o seu sustento e o de sua família. Como assim, Zeca Baleiro, o cara famoso, fã de um anônimo como o Tiago Araripe?

Acho que nem o Tiago mesmo entendeu o porquê de todo aquele alarido. Ele só correspondeu ao abraço da Rita e nos afastamos para almoçar na mesa ao lado. Muitos anos depois a gente foi finalmente compreender a euforia da moça. O Zeca foi cantar em Fortaleza e soltou a produção no encalço do Tiago. Quando se encontraram, Tiago decifrou o enigma. Esse Zeca Baleiro, quando ainda era um imberbe estudante de jornalismo no Rio de Janeiro, perambulava pelos sebos da cidade quando subitamente um disco em LP despencou na cabeça dele (eu gosto de imaginar assim essa cena). Na capa do LP, toda em preto, havia um homem magrinho e pelado montado sobre um leão e o título: Cabelos de Sansão. Não sei se por ver a capa ou ouvir a intuição, o Zeca levou o disco para casa e ouviu. E ouviu. E ouviu. Ali havia uma constelação de artistas como Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Itamar Assumpção e um luminar da poesia como Augusto de Campos, levando uma mistura pop, meio rock progressista, com os ritmos nordestinos. Zeca pirou.


E quando foi fazer um show em Fortaleza, despachou sua produção para ir à cata do seu herói de juventude. O homem que se apresentou diante dele já portava uma calvície acentuada, o corpo não era o mesmo do jovem que cavalgava leões, mas ainda era o Tiago. Por trás de todo aquele disfarce de Clark Kent ainda se manifestava, ocasionalmente, o Super Homem da voz de violino e o compositor de melodias e letras sofisticadas que tinha sido parceiro de Tom Zé e Décio Pignatari, e um dos expoentes da Vanguarda Paulistana, o movimento que lançou Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, entre outros. Zeca Baleiro falou: “Vamos compor juntos?”.


Zeca reeditou o disco preto que lhe deu aquele galo na cabeça (mentira! Eu que gosto de inventar essa história do disco despencando em cima do Baleiro), o Cabelos de Sansão, e a Saravá Discos, selo do Zeca, relançou o disco do Tiago em CD até que o cara atingiu o nirvana e foi morar em Portugal, onde se diverte compondo com figuras de todo o continente europeu e desfruta a vida na companhia da insubstituível aliada Ana Ruth, casada com ele há várias décadas e a quem ele dedica canções cada vez mais desesperadas na tentativa vã de expressar o tamanho do amor que os une. Ele sabe que as canções são lindas, mas ainda é pouco. Por isso não para de compor.


Também se ocupa, do seu auto exílio português, de enviar afagos na forma de canções de consolo aos seus compatriotas, que estamos passando por aquela que talvez seja a pior e mais mortífera crise da nossa breve história de quinhentos e poucos anos. Num desses alentos foi buscar a parceria da cantora Vânia Bastos, que já o havia acompanhado em Cabelos de Sansão, e ambos gravaram um single na pandemia – ele de Portugal, ela de São Paulo e mais um tanto de outros músicos espalhados pelo mundo a fazer os acompanhamentos.


Eu fiquei tão impressionado com o resultado que decidi chamar Tiago e Vânia para uma entrevista, que ficou linda, me emocionou e foi ao ar no último sábado, dia 3. Tiago e Vânia não se viam, mesmo que virtualmente, há várias décadas. Ficaram emocionados com o reencontro e eu cheio de orgulho de ter patrocinado o bate-bola entre os dois. Aí o Tiago me pediu para escrever este texto para o blog dele. Eu escrevi. Mas fiquei com a sensação de que o texto não termina. Porque toda vez que a gente encontra o Tiago tem sempre uma surpresa, uma frase desconcertante, um personagem diferente de tudo o que você já tinha visto antes. É como aquelas bonecas russas: você abre uma e tem outra dentro. E mais outra. E mais outra. O Tiago é assim. Tá sempre surpreendendo a gente. E eu teria que continuar escrevendo muito mais. Mas acho que vou parar e ir lá no YouTube ouvir o Tiago cantar. Desculpaí, eu vou dar uma saidinha. Talvez eu volte depois. Tchau.


Wilson Bentos



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