• Tiago Araripe

Parceria à milanesa


O compositor e cantor Lorenzo Vizzini, em seu estúdio em Milão. (Foto de divulgação)


Ao publicar esta sequência de textos a respeito de parcerias musicais, eu não poderia deixar de falar de Lorenzo Vizzini e de convidá-lo a participar. Ele é o meu primeiro parceiro italiano, o que muito me honra. Há dois dias, assistindo a um filme de Ettore Scola, estava admirando a bela trilha de Ennio Morricone e lembrando dos grandes compositores de música para cinema - só nessa área uma seara fértil que inclui nomes como Nino Rota, Pino Donaggio e Giorgio Moroder, entre outros.


Isso pra resumir a admiração que sinto pela música italiana, desde canções que eu ouvia no rádio quando criança até os clássicos. A própria língua do país é uma das mais melodiosas que conheço. Lorenzo é um compositor popular bem sucedido. Tem canções gravadas por grandes intérpretes, num leque que se estende de Ornella Vanoni a Renato Zero - nos três volumes do álbum ZeroSettanta, há diversas composições de Lorenzo, algumas em parceria com o artista (a respeito do compositor, o jornal La Sicilia estampou, em manchete de uma reportagem de página inteira: Elegante come Bindi ed Endrigo).


Eu havia composto uma música ao violão, tendo passado semanas a harmonizá-la da melhor maneira possível. O resultado me lembrou as trilhas de filmes italianos de que eu tanto gosto. Pedi pra Tahina Rahary, músico de Madagascar morador de uma aldeia vizinha, que fizesse um arranjo no seu home studio. Enviei o resultado ao meu amigo Danilo, também artista de shows de humor e pai de Lorenzo. Ele gostou muito e disse que a gravação o fez lembrar das trilhas de Morricone, certamente um mérito mais do arranjo do Tahina do que da composição em si. O mp3 fez mais uma viagem pela internet e chegou às mãos de Lorenzo, que, quase de bate-pronto, me devolveu com a bela letra registrada na sua voz. Constatei que, além de compositor habilidoso, ele canta muito bem.


Mas deixemos que ele mesmo conte, a seguir, a história da nossa parceria com suas próprias palavras. (Mesmo falando bem o português, Lorenzo achou melhor escrever em italiano e traduzir o texto usando o Google.)



Lorenzo durante visita que nos fez em Bombarral (PT).



"ENCONTREI O TIAGO TRÊS VEZES - PRIMEIRO COMO OUVINTE,

DEPOIS COMO COLABORADOR E FINALMENTE PESSOALMENTE."


"Aquele grande poeta de Vinicius de Moraes, já há muitos anos, escreveu 'a vida, amigo, é a arte do encontro'.


Certamente não será original concordar com estas palavras, mas quis começar desta forma esta pequena história do meu encontro com o Tiago.


Meu nome é Lorenzo Vizzini e, na vida, escrevo canções. Antes de contar isso e o fio vermelho que me liga à música e consequentemente ao Tiago, quero contar uma pequena história, que é aquela que me liga ao Brasil.


É dar um pequeno passo para trás. Era fevereiro de 2008 e algumas semanas antes, para minha grande surpresa, meu pai me disse que íamos fazer uma curta viagem de negócios ao Brasil. Eu sabia pouco sobre o Brasil, principalmente música, que tanto amava desde criança, mas meu entusiasmo era indescritível. Saindo de Milão, pousamos no Rio Grande do Norte, em Natal. O meu entusiasmo não desanimou: foi uma curta viagem em família de cerca de dez dias, mas foi o suficiente para me apaixonar definitivamente por aquela terra maravilhosa.


Com o passar dos anos, não tive muitas oportunidades de voltar, mas assim que tive minhas primeiras pequenas satisfações através da música, pensei que nada mais me satisfaria como viajar.

Assim, voltei logo que possível e, ano após ano, fui descobrindo aquelas outras partes que ainda não tinha visto: o caos real do Rio, a poesia metropolitana de São Paulo, as praias imaculadas de Santa Catarina e eu poderíamos continuar para sempre. Em pouco tempo, sem uma verdadeira educação canônica, comecei a aprender e a apreciar o português e, consequentemente, todas aquelas canções que amava em criança: de Chico Buarque a Caetano Veloso, até os compositores descobertos na estrada e recomendados por velhos e novos amigos. que encontrei de vez em quando.


Tudo começava a adquirir um significado mais claro e pessoal.


Com o passar do tempo, a vida me concedeu o imenso privilégio de poder voltar cada vez mais ao Brasil, também para trabalhar junto com maravilhosos amigos artistas e músicos, jogando o jogo que nunca me cansava desde criança: escrever canções.

“Por que este prólogo tão prolixo?”, você pode estar se perguntando, com todos os motivos.


Porque o meu encontro com o Tiago não pode ignorar essas bases.


Vamos dar mais um salto no tempo.


Uma tarde, há cerca de dois anos, o meu pai, que entretanto conheceu o Tiago, deixa-me ouvir aquele lindo disco que é o Baião de Nós. A música me atinge imediatamente e a escrita me fascina, então pego o livrinho e aprecio as letras, que têm o precioso dom de serem sempre surpreendentes e nítidas. Peço ao meu pai que me empreste o disco e começo a ouvi-lo por vários dias, percebendo cada vez mais nuances composicionais e textuais a cada escuta, e fico tão fascinado por isso.


Assim começo, como ouvinte e admirador, a conhecer o Tiago e a sua obra.


Acontece que, alguns meses depois, para minha grata surpresa, meu pai me escreveu para dizer que Tiago havia mandado uma música para ele, perguntando se eu gostaria de escrever o texto em italiano. É uma música intensa e emocionante, que imediatamente me inspira com palavras. Assim, sem avisar e naturalmente, no final de 2019, nasceu a nossa primeira colaboração, uma música ainda inédita intitulada Lei.

2020 está chegando, um ano do qual muito já foi falado.


Depois de um inverno muito complicado, me permito a oportunidade de fazer uma viagem no verão. Já disse que nada no mundo me satisfaz tanto quanto viajar. Desta vez a minha viagem pára em Portugal, um país que nunca tinha visto. Assim, sabendo que ele morava ali, escrevo ao Tiago, que com muita gentileza me convida a visitá-lo.


Para mim é uma oportunidade de conhecer pessoalmente, além do grande artista que é, uma pessoa generosa e sensível, profundamente apaixonada pela música e pela vida (que muitas vezes são a mesma coisa). Ele me conta sua história musical e daquele período mágico da cena paulista, histórias que obviamente me fascinam e me fazem viajar com a imaginação. Embora as nossas gerações sejam diferentes, ao lado do Tiago senti uma proximidade que me fez sentir acolhida e querida desde o primeiro momento. No curto tempo que passamos juntos, nos permitimos muitos pequenos momentos maravilhosos, que até hoje levo no coração, relembrando-os com um sorriso.

A partir desse momento, tivemos a oportunidade de escrever juntos outras vezes e cada vez tem sido um prazer infinito fazê-lo e espero muito que em breve algumas dessas canções possam ver a luz também publicamente e não apenas em nossos discos rígidos.


Como disse Vinicius, a vida é a arte do encontro. Encontrei o Tiago três vezes - primeiro como ouvinte, depois como colaborador e finalmente pessoalmente - e o encontro com ele e a sua música foi certamente um encontro feliz e surpreendente para mim, que espero que nos dê muitos outros momentos juntos."


Lorenzo Vizzini



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