• Tiago Araripe

Estrela do Mar: história de uma parceria

Atualizado: Jan 4


Papa Poluição: Cid Campos, José Luiz Penna, Paulo Costta (em pé);

Beto Carrera, Tiago Araripe e Xico Carlos (sentados), (Foto de divulgação)


Desde que comecei a arriscar as primeiros composições, ainda no Crato cearense, vieram as primeiras parcerias. Aconteceram com o guitarrista José Nacelio de Oliveira, então integrante do conjunto (como se chamavam as bandas à época) Ases do Ritmo. Em seguida ele criaria o The Tops, do qual também participaria Xico Carlos (Chico Sa). Eu ainda não sabia tocar, mesmo que minimamente, violão e contar com ele para musicar minhas incipientes letras era fundamental. Lembro a alegria que sentia ao ouvir a composição pronta e tocada por Veím, então o apelido de Nacelio. Anos depois, já em São Paulo, vieram outros parceiros como Décio Pignatari, José Luiz Penna, Jorge Alfredo e Cid Campos, para falar daqueles com quem tive as primeiras composições gravadas, Desde então, tenho especial consideração com os meus parceiros musicais, a quem abro o espaço desta série para que falem de parcerias: o que significam, como acontecem e histórias interessantes ocorridas no processo de criação conjunta,


Já recebi contribuições de alguns parceiros, que publicarei no decorrer das próximas semanas (sempre às quintas-feiras). A estreia cabe a Cid Campos, com quem compus Estrela do Mar, bolero sideral que viria a integrar o álbum Cabelos de Sansão. Cid fez uma contextualização tão detalhada da época em que a música foi composta (encontrei dados que eu nem lembrava mais), que decidi publicar seu texto na íntegra. Fiquei também feliz ao ver que ele guardara o original da letra que eu lhe dera, também postada aqui. Cid integrou o Papa Poluição como baixista, em substituição a Bill Soares (também artista plástico), participando de momentos importantes do grupo, como a gravação da trilha sonora do filme Sargento Getúlio, de Hermano Penna.


A seguir, as palavras de Cid Campos.



Estrela do Mar


"No final dos anos 70, fui morar na Vila Madalena, numa casinha de fundos, na rua Girassol, 507, que dividia com o grande amigo, o baterista Xico Carlos, que hoje assina Chico Sá. Nessa época, Chico me indicou para tocar como baixista no grupo Papa Poluição, formado por ele, Tiago Araripe, Zé Luiz Penna, Paulo Costta e Beto Carrera. Conheci assim, bem de perto, o mundo dos estúdios, dos shows mais profissionais e a disciplina dos ensaios, que fazíamos assiduamente na casa do Zé Luiz, também na rua Girassol, quando a Vila ainda não era nada do que é hoje. Todos moravam nos arredores, frequentávamos muito o bar “Sujinho”, na esquina da rua Morato Coelho com a rua Wisard, para onde sempre íamos depois dos shows e ensaios. Assim, de alguma forma pude acompanhar, junto a esses amigos, a chegada ao bairro de muitos outros músicos e artistas, além do crescimento constante e finalmente o agito que acabou virando o bairro de Vila Madalena.


Zé Luiz já morava por ali há algum tempo, mas, de qualquer maneira, creio que fomos alguns dos primeiros músicos cabeludos do bairro, até então habitado por operários e antigos moradores - além de alguns bandidos, como o Lanchão, com quem éramos obrigados a conviver como vizinhos e até mantínhamos uma relação amistosa. Mas atravessávamos a rua sem vacilar se o avistássemos no mesmo lado da calçada, dando um longínquo aceno ou balançar de cabeça para disfarçar. Nunca aconteceu nada, mas como sempre estávamos carregando nossos instrumentos, preferíamos não arriscar.


Participei também, com o grupo Papa Poluição, da trilha sonora do filme Sargento Getúlio, dirigido por Hermano Penna, cujas composições foram feitas por Zé Luiz, Paulo e Tiago, gravadas no Estúdio Eldorado. Lembro que quando entrei fiquei maravilhado com o tamanho da sala de gravações, a técnica com enormes caixas acústicas, a imensa mesa de som e todos os aparatos técnicos. Jamais havia entrado num estúdio assim.


Pensava comigo, quantas pessoas maravilhosas deveriam ter passado por ali, quantas gravações realizadas e que, naquele mesmo estúdio, Caetano Veloso gravara uma de suas obras mais fantásticas: Araçá Azul.

Estava deslumbrado. Demorei um pouco para me acostumar com a luz vermelha que acendia quando se iniciava uma tomada de gravação e confesso que tremia na base quando o engenheiro de som dizia a palavra: – Gravando! Porém, me tranqüilizava quando olhava para o lado e via Zé Luiz, Paulinho, Tiago, Beto e Chiquinho muito à vontade.


Em 1980 formei, juntamente com Chico Sa (bateria), Felipe Ávila* (guitarra), Luiz Brasil (guitarra, bandolim) e um pouco mais adiante com a participação dos percussionistas Cabral Lobato e Guello, o grupo instrumental Sexo dos Anjos. Era uma banda e tanto, que trazia um repertório autoral de música instrumental brasileira mesclada ao jazz, blues e outras modalidades. Nunca gravamos um disco. A situação na época era muito difícil para a música instrumental, não havendo muita chance junto às gravadoras e assim, infelizmente, não tivemos a sorte de uma boa oportunidade, mas por outro lado fizemos inúmeros shows, e milhares de ensaios, que nos davam enorme prazer e respeitabilidade como músicos instrumentistas. Até hoje Felipe Ávila, que segue sua carreira como instrumentista virtuose e compositor, tem participado de meus shows. Além disso, tive a alegria de tê-lo como guitarrista e violonista na gravação dos meus CDs No Lago do Olho (2001), Fala da Palavra (2004), Crianças Crionças (2009), Nem (2014) e Emily (2017). Em dezembro de 2007, tive a oportunidade de reunir Felipe e Luiz numa apresentação que fiz no Rio de Janeiro. Foi muito legal! Quase dava para sentir o Sexo dos Anjos no palco.


Eu gostava muito de frequentar a casa do Tiago, na rua Wisard, na Vila, e vê-lo cantar as suas músicas, sobretudo as inéditas, pois muitas delas nunca entraram no repertório do Papa Poluição.

Às vezes levava o meu violão ou o baixo para tocar junto. Não lembro bem, mas acho que nessa época, 79/80, Tiago já estava casado com Monica, uma querida amiga minha de adolescência. De certa forma, apadrinhei esse casamento, pois achei que os dois eram muito parecidos...


Original da letra de Estrela do Mar (Cid Campos-Tiago Araripe), faixa de Cabelos de Sansão.


Em dezembro de 79, Tiago me passou datilografada a letra de Estrela do Mar (ver foto) para que eu fizesse a música. Reparem que fiz uma sugestão de uma pequena alteração na letra, aceita por Tiago. Lembro que adorei a letra e prontamente compus a música no violão, onde fiz questão de levar a melodia em alguns momentos para uma região bem aguda, na qual somente um contratenor com a tessitura e a afinação de Tiago poderia conseguir chegar. Gostamos muito do resultado. Um pouco depois fizemos uma outra música Pétalas Abertas, ainda inédita.


Nessa época, Tiago me chamou para fazer com ele um programa de rádio, FM Inéditos, que seria gravado no estúdio Eldorado. Arrumei um violão de 12 cordas e começamos a trabalhar em arranjos para esse projeto. Também participaram dessa gravação o grupo Sexo dos Anjos e outros músicos. Então, nesse programa, Estrela do Mar foi gravada pela primeira vez.


Foto para divulgação do show Fôlego de 7 Gatos:

Xico Carlos, Cid Campos, Felipe Ávila, Luiz Brasil e Tiago Araripe.


Em 1981, juntamos em um mesmo show o Sexo dos Anjos e Tiago Araripe. O espetáculo chamava-se Fôlego de 7 Gatos e foi apresentado no teatro Lira Paulistana. A maior parte das músicas que Tiago apresentava viria a fazer parte de seu LP que estava por vir: Cabelos de Sansão.


Ainda em 1981, Tiago veio com a notícia de ter conseguido uma oportunidade para gravar um LP pelo selo Lira Paulistana. Assim, convidou, entre outras participações, o Sexo dos Anjos para fazer alguns dos arranjos e gravar como banda de base. O repertório seria composto de músicas suas e parcerias.


Assim, tive a minha primeira música gravada. Obrigado, Tiago e todos esses amigos queridos, músicos incríveis com quem tive a a oportunidade de conviver e aprender."

Cid Campos



* Importante dizer: Felipe Ávila é quem escreveu o brilhante arranjo de Cine Cassino, outra das faixas de Cabelos de Sansão. (TA)

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